Hoje é uma data importante para quem faz anos, mas parece-me que ninguém faz anos hoje... isso deixou de importar.
Todas as manhãs em que acordava ao teu lado eram datas importantes. E aconteciam mais que uma vez por ano!
Hoje acordo sozinha...
E parece que para os outros também já não existem datas importantes. Também devem acordar sozinhos...
Decidi que os meus dias deixaram de ter data.
Agora têm duas horas em que estou na rua para parecer viva. E todos parecem mortos ao meu lado. O resto do tempo enterro-o à porta de casa quando regresso.
Ontem ouvi alguém rir e assustei-me. Pareceu-me que eras tu.
Devia estar louca...
Pensei em rir-me também mas não tive vontade.
Julgo-me sem vontade até de morrer e os mortos que por aí andam é que me dizem que tenho de ter esperança. (ri-se)
Voltasse eu ao dia em que te estendi a mão para a apertares. (estende a mão)
Voltasse eu ao dia em que me estendi no chão para me... (tapa a boca com a mão)
Prefiro-me sozinha. Prefiro o meu corpo sem temperatura deitado a meio metro do chão.
Prefiro tudo isso à vontade de voltar a ouvir-te mesmo não sendo tu, mesmo sendo um morto qualquer.
A esperança é a utopia do morto. A minha utopia é não ter esperança.
Ana Dionísio
Escrevi este texto inserido num exercício sobre o mundo de Fernando Pessoa, orientado por J'aime Morrison, professora de Projecto Teatral III.
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